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29 de dezembro de 2003
Paradigmas e negócios
André Kischinevsky, para o Globo
Cuidado: a internet pode pegar de surpresa a sua empresa e liquidar seu negócio.
E, para você se defender, não basta ter um site. É preciso
olhar a rede de um jeito diferente, sabendo que os negócios eletrônicos
o obrigam a lidar com tecnologias e comportamentos em evolução
permanente.
Essa parece uma afirmação da época do ôba-ôba
da internet, dos tempos da exuberância irracional. Mas não é.
Muitas organizações, porque não conseguem prever a evolução
da rede, são surpreendidas e enfrentam graves dificuldades. Para traçar
uma estratégia de sucesso, não basta compreender a internet de
hoje. É preciso descobrir como ela vai se comportar no futuro.
É comum que, ao planejarem o uso da internet, as empresas se esqueçam
de como é volátil a tecnologia e o comportamento dos usuários.
Fazem planos estratégicos analisando a internet através do paradigma
tecnológico e cultural de hoje. Esquecem que a rede sofre profundas mudanças
a cada ano. Para abrirmos nossa mente e entendermos como os paradigmas influenciam
o planejamento das empresas, vamos brincar de futurologia e analisar o futuro
e-book (livro eletrônico).
Pare um pouquinho de ler e medite: o e-book vai substituir o livro comum? A
maioria das pessoas diria: “Não, porque o e-book é muito
caro. Porque a bateria dura pouco. Porque não há obras suficientes
disponíveis. Porque é frágil, e pode quebrar. Porque a
tela é desconfortável. Porque o uso é complicado. Porque,
por razões culturais, somos apegados aos livros. Porque gostamos de rabiscar
e fazer anotações nos livros...” E darão ainda muitas
outras razões.
Sabe qual é o problema com essa argumentação? Quem pensa
assim está analisando o futuro a partir de paradigmas da tecnologia atual.
Releia a pergunta: “O e-book vai substituir o livro comum?” A pergunta
é sobre o futuro, e não podemos julgar o futuro pensando na tecnologia
de hoje!
Imagine a seguinte cena: você está na praia com seu neto, daqui
a 50 anos. Você está lendo um livro tradicional, e ele lendo um
e-book. De repente, seu neto diz: “Vô, como você é
antiquado! Não há razão para você ler livros em papel.
Com um e-book, você não precisaria usar óculos, pois o tamanho
da letra é ajustável. Além disso, é muito mais leve
e flexível, praticamente da espessura de uma folha de papel. E é
impermeável — se cair na areia ou na água, não estraga.”
O rapaz pensa mais e continua: “Com o e-book, você pode ver pinturas
de todas as cenas do livro. Pode ouvir o livro, deitado, enquanto toma sol de
olhos fechados. Pode ler entrevistas com o autor e com críticos, e consultar
o dicionário se preciso. Pode ler versões em outros idiomas. Pode
ler no escuro, pois a tela é iluminada. Pode obter, pela internet sem
fio, qualquer livro de seu interesse, pagando muito menos do que o custo de
um livro impresso. Pode fazer anotações coloridas e gravar comentários...”
Mas, afinal, o que importa o exemplo do e-book para a sua empresa? Bem, assim
como é perigoso julgar o futuro do e-book analisando apenas a tecnologia
atual, é arriscado julgar como a internet vai afetar sua organização
sem uma boa análise das mudanças que a tecnologia vai sofrer nos
próximos anos. Meu Palm tem 139 mil vezes mais memória e 16 mil
vezes mais cores que o meu primeiro computador, um TK-82c comprado há
18 anos. E custa, em dólares, mais ou menos o mesmo. A tecnologia muda
rápido, e os negócios eletrônicos vão afetar drasticamente
quase todas as empresas.
Quando planejar que conseqüências a rede trará para sua organização,
seja muito cuidadoso. Não caia na armadilha de prever o comportamento
futuro do mercado olhando para a internet de hoje. Muitas empresas cometeram
esse erro, e perderam espaço no mercado. Há 10 anos, as gravadoras
pensavam: “Por que me preocupar com a internet? Ela é lenta demais
para transmitir músicas com qualidade”. Elas estavam certas —
para os paradigmas da época. Mas, com o tempo, a internet tornou-se mais
rápida, surgiu o MP3... e as gravadoras pagam o preço por ter
julgado o futuro com paradigmas que ficaram ultrapassados.
Falar em quebra de paradigmas pode parecer batido. Mas, para planejar bem o
futuro de sua empresa, você precisa se abstrair das limitações
atuais da rede. Precisa pensar na tecnologia como um continuum de mudanças,
que culminará na comunicação perfeita entre todas as pessoas
e organizações.
ANDRÉ KISCHINEVSKY é diretor do Instituto Infnet
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Software livre já
O modelo proprietário
não levará o Brasil à vanguarda digital
Ninguém mais discute a importância da internet
em nossas vidas. Vivemos mesmo numa sociedade em rede, como
definiu o sociólogo espanhol Manuel Castells ao caracterizar
o intenso uso econômico, cultural e social da comunicação
mediada pelo computador. Há quem veja nesse processo
uma nova revolução tecnológica: sai a
sociedade do uso intensivo de energia, entra a do uso intensivo
da informação.
Esse processo de conexão de empresas, governos, escolas,
residências e pessoas não vai parar. Ao contrário,
o software deverá assumir um papel cada vez mais relevante
em nossas sociedades. Só que o Brasil tem um problema
sério a resolver para realmente aproveitar essa onda.
Atualmente, o governo gasta no mínimo 80 000 reais
pelo pagamento de licenças de software em cada 100
computadores comprados -- e a maior parte do dinheiro vai
para fora. É muito. O crescente esforço de informatização
do país não será sustentável se
ele for realizado no modelo do software proprietário.
O Brasil possui aproximadamente 170 000 escolas públicas,
das quais apenas 20 000 detêm algum tipo de sala de
informática. Se forem levados 20 computadores para
cada uma das 100 000 maiores escolas públicas do país,
teremos alocado 2 milhões de máquinas. Isso
dá algo como 200 milhões de dólares somente
com o pagamento de licenças de programa de cada computador.
Mas isso tudo é necessário?
Não. Felizmente, existe a alternativa do software livre.
O principal exemplo é o sistema operacional GNU/Linux,
aperfeiçoado de maneira compartilhada por mais de 100
000 desenvolvedores no mundo todo -- são especialistas,
pequenas e grandes empresas, universidades e governos. O responsável
pela coordenação das novas versões do
GNU/Linux é um brasileiro de 21 anos, Marcelo Tosatti.
O software livre é a maior expressão do trabalho
colaborativo realizado no interior da rede mundial de computadores.
Por ser um software aberto e não-proprietário,
ele é mais seguro. Os órgãos públicos
e as empresas podem adequá-lo às suas necessidades
e corrigir eventuais falhas. A Marinha do Brasil há
muito tempo usa software livre. A Nasa, a Casa Branca e a
Bolsa de Nova York também. O bem-sucedido Comitê
Gestor da Internet brasileira usa software livre, Linux e
FreeBSD, o que tem garantido uma estabilidade inegável.
O maior projeto de inclusão digital municipal brasileiro
-- os telecentros da prefeitura de São Paulo -- utiliza
o software livre OpenOffice.org. Em setembro de 2003, outro
software não-proprietário, o Apache, já
dominava 64% do mercado mundial de servidores web.
Algumas pessoas têm demonstrado preocupação
com a adoção do software livre pelo governo
do presidente Lula. Não deveriam se preocupar tanto,
pois o mundo caminha para o software livre. A comunidade de
desenvolvedores cresce a cada dia. Na Europa, o governo alemão
aposta em inúmeras empresas de código-aberto
e a prefeitura de Munique já migrou para o Linux. Na
França, Espanha, China e Índia cresce o uso
dos programas livres. Grandes empresas, como IBM, Oracle e
Sony, já o adotam. Até Hollywood aderiu: os
efeitos especiais de O Senhor dos Anéis foram feitos
em Linux. O Brasil não pode perder a chance de comandar
essa mudança de paradigma.
Por que ficarmos aprisionados ao software de uma única
empresa? Ao optar preferencialmente pelo software livre, o
governo quer romper a onerosa reserva de mercado para um monopólio.
Quem ganha? A inteligência coletiva brasileira, uma
vez que temos uma das maiores comunidades de desenvolvedores
de software livre do planeta.
Sérgio Amadeu da Silveira é presidente do Instituto
Nacional de Tecnologia da Informação (ITI),
do Ministério da Casa Civil.
Autor: Sérgio Amadeu da Silveira
Fonte: Portal Exame - http://www.exame.com.br
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